O Amargor da cerveja é uma das principais características que diferem as cervejas Pilsens brasileiras  de várias outras escolas mundiais, inclusive da cerveja Pilsen Europeia, e acaba sendo também um limite para quem não gosta de cerveja artesanal, mas na realidade não conhece os diversos estilos, pois há muitas cervejas artesanais e,m que o amargor não é ressaltado.

Em uma experiência recente na Europa, pude acompanhar uma prima encontrar uma solução um tanto quanto inusitada. Logo, esse texto passa a ser mais um conto do que um texto informativo, mas pode ser que alguém que não tolere o amargor da cerveja possas encontrar uma solução para o seu problema, embora  desde já, eu confesso que não faria isso.

Nas férias do ano passado eu e minha esposa realizamos um Mochilão na Europa. Na realidade aproveitamos a coincidência de dois primos e um grande amigo estarem morando em diferentes países da Europa: Itália, Irlanda e Holanda no mesmo período em que encontramos uma ótima oferta de passagens. Ou seja, economizamos consideravelmente com hospedagem e algumas refeições que preparávamos em casa, o que tornou viável uma grande viagem que se tornou uma incrível rota de turismo cervejeiro.

Em minas quando contamos histórias como esses, denominamos de "causos" e esse aconteceu em nossa chegada, nosso receptivo na Holanda. Meu primo e a esposa estavam residindo na cidade de Veldhoven, visina da cidade de Eindhoven, a terra do famoso time PSV onde atuaram Romário e Ronaldo Fenômeno. Somos inclusive compadres e ele e a esposa ficaram muito empolgados com a possibilidade de nos receber. Então foi por onde entramos na Europa para iniciar nosso mochilão.

Chegamos em Amsterdã numa sexta-feira pela manhã, fizemos um rápido passeio e pegamos o ônibus para Eindhoven, eu estava com o endereço deles e já havia traçado todo o plano pra chegar lá por meio do transporte público, mas ao descer do ônibus, para nossa surpresa, avistei meu primo com o filho mais velho para uma calorosa recepção. Eu já passei alguns períodos de mais de 20 dias no exterior a trabalho e sei o quanto começamos a sentir falta da nossa cultura em determinado momento, seja a comida, nossas farras entre amigos como os bons e velhos churrascos ou mesmo os botecos típicos brasileiros. Enfim sentimos muita falta dos amigos e familiares. Portanto foi uma um encontro surpresa e muito caloroso. 

Ao chegar na sua casa, matamos a saudade de toda família e saímos para o supermercado. As opções de cervejas e os preços no supermercado nos induziu a encher um carrinho com várias opções diferentes. Muita cerveja belga, algumas que até são comercializadas no Brasil, mas com preços muito mais baratos e outras que não conhecia, enfim era a hora de tirar a barriga da miséria logo na chegada.

E é aqui que chegamos ao conflito da cerveja amarga. Minha prima, desde que chegou para morar na Holanda, não estava tomando cerveja, aliás, há bem mais tempo, pois teve um período de gestação e amamentação da filha mais nova, minha afilhada maravilhosa. E ao ver eu e minha esposa até babando com tanta cerveja, boa resolveu experimentar. Na realidade ela já havia tentado beber, mas nenhuma cerveja que experimentou por lá lhe agradou, pois achava todas amargas. Para ela cerveja boa é a brasileira, aliás a experiência por lá a fez valorizar ainda mais nosso país. Parece que não, mas sentimos falta da nossa cultura, e pra quem gosta de festa e bagunça com os amigos, dá saudade mesmo como já disse, sem contar outras dificuldades culturais inerentes a cada país e que muitas vezes não nos adaptados mesmo.

Eu havia comprado algumas cervejas Blond Ale belgas, que são mais frutadas e adocicadas inclusive, embora com um teor alcoólico mais acentuado. Ofereci a ela dizendo que provavelmente ela gostaria, e não deu outra. Adorou, lamentou não ter descoberto essa cerveja antes e aí começamos a curtir nossa primeira noite, sim em casa, até porque estávamos muito cansados de uma viagem exaustiva e de um corrido passeio pelo famoso jardim das tulipas de Amsterdã, o Keukenhof, cujas visitas só são abertas na primavera. Descemos do avião, deixamos nossas malas em um guarda volumes e corremos para aproveitar essa oportunidade ímpar.

Entre um copo e outra e uma conversa muito instrutiva, mas também muitas fofocas de família e obviamente boas risadas, lá pelas tantas, as crianças já haviam dormido. Meu primo havia trabalhado durante o dia, minha esposa cansada pela longa viagem e longo dia de muita caminhada pelas tulipas, então resolvemos dormir. Mas minha prima disse que não faríamos essa desfeita, há tanto tempo que não bebia, tínhamos que acompanha-la pois ela havia gostado da Blond Ale.

O problema é que as Blond Ales acabaram, ela já animada tentou experimentar uma Lager Belga, mas infelizmente não desceu bem, - “como vocês conseguem tomar essa cerveja tão ruim?” perguntou. Mas o papo tava muito bom, ela estava empolgadíssima e acabou enchendo um copo com a Lager. Novamente lamentou, - "que cerveja ruim, não dá". Mas estávamos na cozinha da casa e ela olhou pro lado e viu um adoçante em gotas e pensou, se a Blond Ale era adocicada e gostosa, quem sabe o adoçante não torne a Lager suportável?...

Acreditem, eu jamais faria isso, até porque minhas cervejas preferidas são as mais amargas, mas ela disse que ficou suportável. Aliás, acabamos nos encorajando e continuamos bebendo aquela noite com um ótimo e agradável papo e muito aprendizado sobre a cultura holandesa. Acabou que foi um grande "preview" do poderíamos esperar da nossa viagem. Só terminou porque as crianças acordaram e notamos que já havia amanhecido...

É difícil acreditar que um simples adoçante tenha segurado toda uma noite daquelas de "quebrar a ficha". Eu não tive coragem de experimentar, mas a protagonista dessa história, afirma que corrigiu o amargor, e eu não duvido, pois fui testemunha ocular de todo processo. Fica a dica, se fizer ou comprar uma cerveja mais amarga e o pessoal não estiver gostando, talvez umas gotinhas de adoçante possa resolver...

Você teria coragem? kkkkkkkk...

Agora falando sério, o amargor das cervejas vem sendo apreciado de uma forma diferente. Na realidade à partir da cultura das cervejas artesanais temos tido a oportunidade de uma ampla diversidade sensorial que tem despertado muitos interesses diferentes na degustação de cervejas. Muitas pessoas aos poucos vão percebendo as diferenças, compreendendo os estilos e se identificando com uma cultura que realmente é muito mais ampla do que o ínfimos estilos que até então tínhamos no Brasil. Claro que há espaços para estas cervejas pilsens ou American Light. Mas é fato que o universo cervejeiro é muito mais amplo e que explorá-lo irá fazer com que as pessoas possam se identificar com muitas outras sensações para além do álcool e da refrescância que muitos buscam nas cervejas. O vídeo abaixo é o relato dessa experiência.