Foto: Artur Verkhovetskiy / Depositphotos

Muitas vezes as pessoas passam por bares, restaurantes e diversos outros pontos de lazer sem se questionar se aquele belo e agradável lugar é acessível. Ou seja, esse lugar é para todos? Esse lugar respeita as diferenças e a diversidade da população? Será que esse lugar se importa um mínimo com você?

Eu tenho muitos amigos e amigas com deficiência, com mobilidade reduzida e vejo pessoas que deixam de sair, de se divertir, aliás, de consumir, simplesmente por não ter possibilidade de ser devidamente atendido por não ter como acessar esse ambiente.

Não há dúvidas de que temos amigos, familiares, inclusive pessoas idosas que temos o maior prazer de conviver e de trocar boas conversas e experiências. Mas muitas pessoas possuem limitações em função de uma mobilidade reduzida ou deficiência física. Ser impedido de acessar qualquer lugar que seja é simplesmente ultrajante!

No caso de pessoas com deficiência que consomem líquidos nesses ambientes, o uso de um banheiro é fundamental. Já imaginaram bebendo cerveja com amigos em um bar e na hora que a vontade de ir ao banheiro para eliminar tudo e dar aquela relaxada, você descobrir que não tem banheiro nesse bar? Um bar ou restaurante que não possui um banheiro acessível para pessoas com deficiência e/ou mobilidade reduzida, é na verdade um bar que não possui banheiro na lógica dessas pessoas.

Essa é uma situação de tamanho desconforto que é inimaginável para quem frequenta bares. Ninguém se imagina frequentando um bar sem banheiro. Aliás, tenho certeza que vocês já sentaram num bar pra tomar uma cerveja e depois descobriram que o acesso aos banheiros fica no andar superior ou inferior. Ou seja temos que subir ou descer uma escada para usá-los, e geralmente não há nenhuma outra alternativa. Nem vou entrar nas condições de higiene, mas é algo que inviabiliza também a sua utilização. Ou seja temos problemas seríssimos de acessibilidade nos bares e restaurantes brasileiros.

O dia 21 de setembro, dia da árvore, também foi escolhido como o dia alusivo ao florescimento dos direitos da pessoa com deficiência. É isso mesmo, justamente em função de ser o dia da árvore o movimento das pessoas com deficiência definiu essa data como o Dia Nacional de Luta pelos Direitos da Pessoa com Deficiência, portanto inicia-se em todo Brasil um movimento para dar visibilidade aos direitos das pessoas com deficiência, um movimento em prol da conscientização sobre não só a acessibilidade, mas esta é uma condição sem precedentes se quisermos construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva. Portanto em alusão a data 21/09, vários municípios e estados estão promovendo o chamado Setembro Verde, buscando-se intensificar a conscientização sobre a temática

As pessoas com deficiência querem simplesmente garantir os mesmos direitos que todos, ou seja, equiparar as condições para que possa trabalhar, ir e vir, viajar, divertir, namorar e muito mais.

Quando saio com meus amigos cervejeiros com deficiência, seja para um bar ou para curtir um evento ou mesmo o carnaval, muitas vezes me deparo com um sentimento de absoluta indignação.

A acessibilidade é lei, e já passou da hora de ser devidamente cumprida. Eu garanto a você, que um espaço que atende, ainda que o básico, as normas mínimas de acessibilidade vigentes, é um espaço onde gestantes, pessoas conduzindo um carrinho de bebê, pessoas com mobilidade reduzida, pessoas idosas, mesmo aquelas que temporariamente estão com uma lesão como uma torção do tornozelo, e  pessoas com deficiência, podem transitar com maior segurança e autonomia e obviamente é um espaço melhor para qualquer pessoa também. Acessibilidade então é para todos nós!

A ideia deste texto não é repercutir absurdos, e sim buscar soluções, compartilhar boas práticas.

Neste caso, tive uma experiência no local em que trabalhava, um pequeno centro esportivo. Certa vez, recebemos uma festa da comunidade cega no espaço, eles passaram o dia em atividades recreativas, muita música, dança, futebol de 5, que é pra cego e atividades recreativas na piscina. Mas havia a restrição de servir bebidas alcoólicas nesse espaço. Então eles descobriram um pequeno restaurante ao lado. Eu estava na coordenação desse evento e a turma me convidou para descer com eles. Eram centenas de cegos e eu fiquei entusiasmado de tomar uma com essa galera, mas eu só poderia sair quando as atividades se encerrassem no final da tarde.

Quando cheguei ao restaurante, o mesmo já tinha virado boteco. Eu almoçava lá todos os dias e conhecia os funcionários. A turma estava a todo vapor. A galera estava ensinando os garçons sobre como deveriam atendê-los, apoiá-los, tipo, oferecer o cardápio já lendo as opções, dar apoio para os conduzir aos banheiros. Enfim, Acho que ficamos lá até por volta das 23 horas ou meia noite, se não mais. Os garçons chegavam pra mim a todo momento e se diziam preocupados sobre como essa turma iria embora, O POVO TAVA CHAPANDO MESMO!

Fato é que essa turma era botequeira experiente. No final da noite os grupos que queriam táxi, pediam ao garçom para chamar. Outros se organizavam para ir de ônibus e os próprios garçons se ofereciam para conduzi-los ao ponto mais próximo.

Não sei se já viram cegos andando em grupo, geralmente alguém que enxerga, tenha baixa visão, ou mesmo mais autonomia por conhecer melhor a região, puxa os demais. A turma faz uma fila com cada um segurando no braço do amigo a sua frente. É um trenzinho, e até aí tudo bem. Mas quando o trenzinho sai com um cambaleando pra um lado e outro pro outro, a coisa não fica muito bem organizada. Isso acontece e é mais comum que quem não tem familiaridade ou não convive com pessoas cegas possa imaginar. Enfim dá-se um jeito, mas tudo seria muito mais fácil se toda a sociedade soubesse como apoiá-los, como facilitar o acesso, como proceder para orientá-los. No fim, dá certo porque essa turma é muito guerreira e luta por seu direito a diversão e arte também.

Este evento relatado foi em um sábado, na segunda-feira, quando cheguei ao restaurante para almoçar, os funcionários não falavam de outra coisa, estavam eufóricos pela noite de sábado. Diziam que foi uma experiência incrível, que a galera era muito divertida, que nunca foram tão bem tratados. E aqui eu faço um parênteses, eu nunca vi a o pessoal do restaurante trabalhar tanto como naquele sábado. Mas os caras estavam super satisfeitos e o gerente ainda mais, pois disse que foi o dia em que mais vendeu desde a abertura do estabelecimento.

O que houve naquele dia é algo que lutamos para acontecer em todos os dias. A equipe do restaurante quebrou uma das barreiras mais importantes da acessibilidade, pra mim a mais importante, a barreira atitudinal. Claro que todas as barreiras devem ser eliminadas e é essencial que a derrubemos, mas a atitudinal é a única que só depende da gente, que podemos começar a eliminar agora mesmo.

As pessoas com deficiência exercem sua cidadania, produzem, consumem e um ambiente devidamente acessível só cria mais oportunidades de convívio social. Um bar ou restaurante que se adeque para ser acessível, com certeza é um ambiente mais qualificado, mais acolhedor e aí, do ponto de vista do empreendedor, provavelmente terá maiores condições de ser mais lucrativo também.

A falta de acessibilidade inclusive muda o comportamento das pessoas. Um outro caso que presenciei, foi quando fiz uma viagem com um grupo de pessoas com deficiência para uma cidade do sul do país. Era um evento nacional com pessoas com deficiência de todo Brasil. Um dia eu resolvi sair com alguns amigos pra tomar uma cerveja e fazer um pouco de turismo.

Era uma turma boa de golo, eu já havia saído com eles em outros lugares, já havia participado de festas com eles em associações acessíveis, mas enfim, naquele dia, não quiseram beber. Achei estranho e perguntei por que? A resposta era que parecia não haver banheiros acessíveis na região em que estávamos. Não dava pra beber e depois não ter como aliviar...

Isso é muito comum, acontece em bares, em eventos, no carnaval, enfim, culturalmente a Lei não é cumprida e os beneficiários são então cerceados de terem as mesmas condições para usufruir dos espaços e seus atrativos, nesse caso, uma boa cerveja e vinhos maravilhosos.

Então para fechar essa reflexão, vou citar um exemplo da China! Eu fui técnico da seleção brasileira paralímpica nos Jogos de Beijing 2008. Aliás fui atleta, dirigente esportivo, técnico e pesquisador do famoso pingue-pongue, o tênis de mesa. Participei de comissões técnicas olímpicas e paralímpicas e conheci alguns países em função da minha dedicação e reconhecimento que tive nessa modalidade esportiva. Aliás, essas viagens internacionais me oportunizaram a conhecer diferentes cervejas boas, inclusive.

Mas em 2008 eu fui técnico na delegação que conquistou a primeira medalha do tênis de mesa em jogos paralímpicos. E queríamos comemorar em grande estilo. Uma jornalista brasileira, correspondente em Beijing de uma emissora  de TV do Brasil, me deu a dica e o cartão de uma  churrascaria brasileira.

Nos distribuímos em táxis, que inclusive não era difícil de perceber que mesmo os motoristas falando apenas o mandarim, eles foram treinados para proceder o atendimento a pessoas com deficiência. Sabiam montar e desmontar as cadeiras de rodas, algo que sempre tive q    ue dar o apoio, pois cadeiras esportivas são mais caras e devemos zelar pela sua segurança, pois sem ela um atleta ficaria consideradamente prejudicado. Ao chegar no local da churrascaria, uma bela fachada, um prédio muito chique, e uma longa, bonita e imponente escadaria para acesso a mesma. Parte da turma já virou de costas, indignados pela falta de sorte, por não se tratar de um restaurante acessível. Mas uma jovem e elegante Maitre, nos gritou e eu a atendi. Ela disse que eles haviam planejado uma rota acessível, que se não nos importasse de entrar pela área de serviço, a cozinha, ela nos conduziria até lá.

Entramos num prédio ao lado, uma espécie de shopping, subimos um elevador e fomos conduzidos por uma entrada de serviço, passamos por dentro da cozinha, muito organizada, diga-se de passagem e alcançamos o salão da churrascaria. Nessa rota, eles pintaram o caminho no chão para que as pessoas em cadeira de rodas pudesse chegar de forma autônoma sem precisar ser conduzida ou orientada por funcionários da cozinha. Fomos recebidos por garçons chineses com roupa à caráter de verdadeiros gaúchos. Algo que já nos fez prontamente abrir sorrisos. Porque ficou realmente engraçado.

O dono da churrascaria era mesmo um brasileiro, se apresentou, pediu licença para sentar conosco e compartilhou sua emoção de nos receber. Disse que havia se preparado para isso e que surpreendentemente as primeiras pessoas que recebera, eram brasileiros. O rodízio mais barato que já comi em toda minha vida, e olha que tinha cerveja chinesa incluída no preço. Podia ir na maquina e tirar à vontade, a chamada Tsin Tao.

Isso não é exemplo de acessibilidade. O prédio continua inacessível, mas encontraram uma adaptação razoável para atender uma demanda. Mas quando o dono nos disse que lá não era obrigatório fazer aquela adequação, e que ele quis fazer por achar importante dar acesso a todos, mostra apenas que atitudes podem mudar muita coisa. Conhecer tais possibilidades pode inclusive induzir a uma futura adequação por meio de outras soluções, como elevadores, o que possibilitaria mais segurança para pessoas idosas, pessoas com crianças de colo que não precisariam se arriscar em escadas, enfim, acessibilidade é para todos.

Se não fosse acessível, ainda que com uma adaptação razoável, não teríamos entrado, não teríamos matado a saudade do feijão, da carne, e do que, naquela tarde descobri que mais me fazia falta, o tempero com alho. Que diferença da comida da vila olímpica. Foi uma tarde maravilhosa, e obviamente voltamos lá depois pra repetir a dose antes de retornarmos ao Brasil.

Eu poderia citar vários outros casos, como por exemplo o fato de entrarmos em um restaurante e não ter como nos deslocar entre as mesas pois não há espaço para circulação de cadeira de rodas, ou mesmo chegar em uma mesa e ter barreiras por baixo de forma que a cadeira não entre na mesa. Há muito mais coisas, e todas muito chatas, inadimissíveis, mas que ocorre com frequência. Eu poderia citar espaços de excelência em acessibilidade onde já fui atendido com grupos de pessoas com deficiência, mas não foi no Brasil, infelizmente.

Mas a ideia do texto e do vídeo abaixo que conta esse causo, era fazer uma reflexão, um chamado:

"Você que participa, que organiza eventos cervejeiros ou não, você proprietário de estabelecimentos comerciais, vocês gestores públicos, se liguem nessa! Mudem suas atitudes, abracem a nossa causa, faça valer os direitos, as leis do nosso país, só assim poderemos dizer que somos um país de todos e para todos!"

Nós cervejeiros agradecemos a oportunidade de poder conviver com todos e em todos os ambientes cervejeiros para aproveitarmos essa experiência cultural de apreciar uma boa cerveja com todos os nossos amigos!

Essa foi uma singela forma encontrada para prestar uma homenagem à luta pelos direitos das pessoas com deficiência. Junte-se a essa causa hoje e sempre!


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